thales
senhoras na igreja 1
Captura de tela 2011-10-16 às 16.50.26
todos juntos

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INSTALAÇÃO – mostra final 2011

Encontro de criação 3

Encontro de criação 2

Vídeo performance – encontro de criação 2

A artista Gabriela Canale sugeriu uma interação do Coletivo SIM! com seu projeto pessoal chamado SP Residência Artística (spresidenciartistica.wordpress.com) no qual investigou a escrita urbana de São Paulo e realizou uma série de intervenções e performances na cidade.

A proposta do encontro de criação foi realizar uma vídeo performance que fez parte do filme final da residência – São Paulo, Cidade Imaginada.
O processo foi assim desenvolvido:
- filmagem de uma performance
- projeção da filmagem sobre as pessoas do coletivo que criaram uma nova ação
- filmagem desta sobreposição da primeira filmagem sobre os corpos
O resultado é uma vídeo performance com a sobreposição de tempos e ações. Parte deste material foi editado e faz parde do curta-metragem São Paulo, Cidade Imaginada. Além do vídeo, produzimos também frames, como estes.

Encontro 9 – todos juntos – FINAL

Encontro final. Uma dor do fim. Um alívio do fim. A beleza do fim. Hoje decicimos somente reviver a última experiência do encontro passado. Decidimos refilmar o jogo de dança em frente à igreja, aprofundando-o. Deste material sairá nossa videodança final. Para isso cuidamos melhor da imagem e da qualidade do jogo, do movimento. Relembramos as regras do jogo. Jogamos um pouco de brincadeira para depois jogar a sério. Afinamos os instrumentos que Paulo nos trouxe. Afinamos corpos, ouvidos. Neste momento, aconteceu uma improvisação com os instrumentos regida pelo Paulo. Foi um bela improvisação que também será matéria da trilha sonora da videodança. As crianças e senhoras adoraram escutar cada entrada de instrumento no coletivo de sons. Cada participante tinha o seu instrumento, com timbres muito diferentes entre eles, e era bonito de ver a sonoridade composta instantaneamente na improvisação. Após esta excelente preparação para o jogo fomos ao cenário de nossa dança – a igreja.

Durante 20 minutos jogamos sem interrupção uma espécie de dança das cadeiras onde somente 3 pessoas cabiam. Formaram-se ao longo deste tempo os mais variados trios: 3 senhoras, 3 meninas, 3 meninos, 3 homens, 1 senhora+1 menina+1 mulher, 2 meninos+1homem, enfim. As variações eram belas e muitas delas falavam por si. O movimento comentava o encontro dos corpos. O som tocado ao fundo pelos participantes que não estavam em jogo na cena (os que estavam em cena trocavam constantemente de papel com os que tocavam os instrumentos) complentava o discurso da memória dos corpos e do lugar da vila, do lugar da igreja.

 

Após a experiência, assistimos o fruto do nosso trabalho. Pudemos ver nos olhos de cada participante o orgulho pela criação, o encantamento de si, do lugar, da memória. Bateram palmas no final da exibição de um rascunho da obra final que levará meses para ficar pronta. Tomamos um chá da tarde. Comemos sonhos. Enganamos a fome. Alimentamos a alma. Nos abraçamos mas não dissemos adeus. O que criamos hoje fica na memória, tem eternidade. Chegamos a um fim.

Encontro 8 – todos juntos

Encontro quase final. Senhoras e crianças juntas no boticário. Ao sairmos do último encontro nós refletimos o quanto o grupo de participantes da oficina mostrava a falta de referências dentro da arte e da história para dar limites, qualificar e valorizar as criações que estavam realizando junto ao Coletivo SIM ao longo das últimas semanas. Percebíamos que os participantes sentiam prazer em realizar as propostas de criação mas não se viam como criadores, talvez se vissem como alunos. Entendemos que para as senhoras essa era a referência cultural que traziam de suas histórias quando se encontravam numa relação de educação. E sim, elas estavam numa situação de educação mas também de criação. Desejávamos novos padrões na relação com o conhecimento. Um padrão necessário para que o estado de criação se instaurasse. Faltava uma certa consciência do ato de criar e do papel do criador em expressar dentro dos limites da história social e da arte.

Mostramos então um conjunto de vídeos de obras de artistas que julgamos pertinente nesse momento. Obras e discursos que se relacionavam com a obra que estamos criando juntos – uma videodança tendo como cenário, tema e matéria uma vila tombada. O que é arte? Onde está a poesia? Podemos falar sobre tudo na arte? Foram perguntas respondidas no discurso de Adélia Prado em entrevista cedida a uma rede de tv. Entenderam que todos podemos fazer arte. Este vídeo abriu espaço para os participantes assistirem e apreciarem ao trabalho do Kazuo Ohno, um vídeo de dança tendo a cidade como cenário. Apreciaram o corpo velho e vivo do artista japonês, viram a morte no discurso da dança, as sombras e o frio no azul da imagem, viram a mulher no seu vestido e na sua maquiagem. Entenderam que todos podemos dançar. Enfim mostramos a videodança realizada no fim do projeto passado – vermelhos demais – videodança que circulou este ano pelo festival Dança em Foco. Enxergaram-se no papel de criadores.

Prontos para criar fizemos a proposta de criação de hoje. O grupo escolheria um lugar da vila para realizar um jogo de dança que seria filmado. O grupo escolheu a igreja. Nos dirigimos ao lugar e explicamos as regras do jogo. Sentados num banco largo posto em frente à igreja iniciaríamos o jogo com uma pessoa sentada que realizaria gestos cotidianos marcados num tempo dado pela música tocada pelo grupo fora de cena. Entrariam no jogo mais duas pessoas com o fim de dançar em uníssono o movimento proposto pelo mestre. Quando nós pedíssemos entraria uma nova pessoa em jogo que levaria uma pessoa a sair de cena. As trocas de pessoas seriam sucessivas formando a cada entrada um trio diferente de pessoas. O jogo durou cerca de 15 minutos e ao fim, voltamos ao boticário e assistimos à produção. Foram muitas risadas, alguns silêncios, algumas perguntas ao longo da exibição. Uma pergunta implícita nas questões não feitas – mas que pudemos ler na face de cada um foi: Isso é dança? Como isso pode virar uma videodança? Como uma atividade tão divertida de ser realizada pode ser séria? Pode ser arte?

Tomamos um chá para acalmar a alma. Tomamos um fôlego para a sede do último encontro.

Encontro 7 – todos juntos

O encontro de hoje foi o mais autêntico encontro do processo. Foi a primeira vez que reunimos o grupo de senhoras e de crianças para uma proposta de criação coletiva. Não foi o mais romântico dos encontros, nada como as tensões, as contradições da realidade. Muitas crianças participantes das oficinas até então eram netos das senhoras que frequentavam o grupo. Imaginávamos que seria o encontro mais fácil e natural do mundo! Pois nada disso – as avós chamaram pelos netos, pelos amigos dos netos rua afora e nada deles mostrarem interesse em entram no galpão do boticário para partilharem este espaço. Bater figurinhas lá fora, hoje, parecia mais interessante. Enfim, desistimos de esperar pelos meninos todos e começamos com quem estava conosco – Muitas senhoras e algumas crianças. Tratando-se de um primeiro encontro iniciamos com uma atividade mais corporal e lúdica, acordando nossos corpos e aguçando sentidos. A atividade retomava um pouco da proposta realizada somente com as crianças no encontro passado – trabalhamos as memórias guardadas no corpo. Para isso massageamos nossa pele, afagamos nossa carne, percutimos nossos ossos, fazendo movimentar nossas memórias. Há um ditado chinês que diz que o que vivemos até os 7 anos fica guardado nos ossos. Um baque, uma tensão, sabemos, fica bem guardado nos nós de nossos músculos cansados. Uma queda, uma cirurgia, um banho de sol, fica bem marcado em nossas peles. E tudo isso em nossa alma. Dançamos então com partes do corpo que nos levavam pelo espaço do boticário e nos levavam a tempos atrás. Brincamos novamente, mas desta vez com as senhoras, da dança “da parte do corpo que se apaixona pela outra” a fim de despertar um sentido narrativo no espaço da dança. Ao finalizar esta dança coletiva sentamos todos juntos e falamos sobre memórias guardadas no corpo, no espaço, nas danças. Porém não contamos propriamente histórias. Brincamos de criar outro tipo de narrativa até porque as senhoras encontraram dificuldade em relacionar memórias à partes do corpo de forma objetiva. Para elas não havia memória no cotovelo, nem história para contar do pé. Assim fizemos uma ligação desta primeira atividade com um estudo proposto por Paulo nos últimos encontros. As senhoras e crianças nos trouxeram sons que simbolizassem coisas, palavras, histórias deste lugar da vila maria zélia. A proposta era a partir deste trabalho de memória que cada um trouxesse ao grupo um som que não existisse mais, ou que somente existisse na vila maria zélia. Ao emitir seu som a pessoa poderia se mover, dançar com ele ou falar sobre ele. Neste momento o grupo percebeu o quanto um som que lembramos pode ser uma memória do corpo, uma história do ouvido, do pé, da pele. Gravamos um amplo repertório de sons, escutamos belas histórias, entendemos que uma mesma referência sonora (por exemplo um trem) pode ser muito diferente quando executado por pessoas, vozes diferentes. Entre sons de trens, panelas, máquinas, sinos, pássaros, carros, vendedores variados – o leiteiro, o sapateiro, o doceiro, o vassoreiro –  falamos sobre timbre, identidade, criatividade, loucura. Quer dizer então que a forma como eu percebo a máquina de lavar funcionando pode virar música? Sim, respondia o músico Paulo. Quando eu escuto o trem passando parece que sinto emoções diferentes a cada vez que ele passa, como se ele sentisse de forma diferente cada vez que naquele lugar passa. Será que estou louca?, perguntava a senhora. Não, a senhora está sensível e criativa, respondia Paulo. Aí está a arte, sentir diferente coisas que parecem iguais. Sentir sutilezas no que já foi esquecido e engolido pelo cotidiano. Retomar, ressignificar, recriar a memória em arte. Isso é o que estamos fazendo.

Encontro 5 – as senhoras

Iniciamos nosso terceiro encontro com as senhorinhas da Vila com aproximadamente 25 minutos de atraso, porque optamos por esperar o grupo ficar maior à medida que uma a uma ia chegando. A primeira vivência da tarde foi algo sutil, apenas para dispararmos uma breve conversa sobre a ideia central pensada para o encontro: a busca das coisas escondidas. Sugerindo que todas elas ficassem com os olhos fechados, Thales fez a leitura de um poema de sua autoria, denominado Espontânea mente, que traz em seus versos o anúncio de uma busca por algo desconhecido. Ora este algo ensaia um desvendar acerca de si, confundindo-se com passagens aparentemente banais do cotidiano: “o limiar entre o passo e o poço”, “o cheiro de pipoca”; ora se afasta do sensitivo e se mistura a aspectos extremamente vinculados à nossa razão, sobretudo ocidental: “socrática supremacia aristotélica”, também oferecendo prenúncios de um certo medo do eu lírico que está nesta busca, ou, pelo menos, identifica a existência de algo escondido, mesmo sem saber ao certo o que seja.

 

Este jogo de ir e vir do poema, talvez tanto por não oferecer um raciocínio linear quanto por conter termos não tão comuns à nossa fala cotidiana, como “pseudo vida” ou “anti-semiótico”, fez com que “nossas” senhorinhas em certos momentos, ao explanarem o que ficou do poema para cada uma, lançassem mão de pequenas críticas, do tipo “poderia ser mais curto” e “algumas palavras são complicadas de se entender”. Entretanto, ao mesmo tempo, lembravam de trechos do poema que mais se identificaram, todas elas tendo alguma relação com a memória, com passagens de suas vidas, principalmente da infância. Uma delas começou a relatar que, ao ouvir “menina atrás de paredes inteiras no bate-cara de esconde-esconde”, automaticamente se lembrou de quando brincava de esconde-esconde com seus amigos, e logo sentiu uma sensação de paz e alegria. Thales interagiu perguntando até que número se batia cara naquela época, ao que ela respondeu ser até o número 10. Thales trouxe sua lembrança de infância, relatando que com seus amigos o bate-cara ia até o número 50. Outra senhorinha comentou que percebeu o já citado receio que existe de alguém em encontrar algo escondido. A medida que elas falavam, denotavam uma certa insegurança e cautela, como alunas que precisavam dar conta daquilo que o professor queria que elas respondessem. Thales e Paulo, ao perceberem isso, foram deixando-as tranquilas quanto a isso, explicando que não se tratava de identificar coisas certas ou erradas, e sim de tornar evidente seus sentimentos ao ouvirem as palavras declamadas, que era justamente o que elas estavam fazendo. Na verdade, ficamos até bastante surpresos e satisfeitos com o grau de sensibilidade que elas estavam demonstrando ter. Thales foi, aos poucos, mediando um diálogo para que elas percebessem diferenças entre esta proposta de texto e outras existentes em nosso dia a dia, por exemplo notícia de jornal. Por ser um poema, existe a possibilidade de o entendermos de forma menos racional, muitas vezes deixando espaço para que ele nos pegue de surpresa numa ou noutra passagem, fazendo com que saiamos dele em pensamento por algum instante para voltarmos depois.

 

Quando foi percebido que tínhamos, enfim, destacado a questão da “busca ou percepção de algo escondido” como tema transversal do poema, passamos para a etapa seguinte. Thales, aproveitando a lembrança do esconde-esconde, sugeriu dois momentos, sendo um dentro do boticário e outro fora dele. Como introdução desta etapa, Thales explorou o artista Paulo como exemplo. Quando nos referimos a ele apenas pelo seu nome, é suficiente para dizermos quem ele é? A partir disso, fomos identificando o que poderia estar por trás (escondido) do nome Paulo: músico, adora boas guloseimas, pai do Fernão… O desafio de cada uma, agora, seria de procurar palavras que, de repente, estavam escondidas nas coisas ou espaços existentes no boticário. Para este primeiro momento, sugerimos que fosse um substantivo. Observamos que não seriam necessariamente palavras escritas em algo, e sim uma coisa, um nome que representasse o que estaria escondido, tal qual “música” ou “guloseimas” ou “Fernão” estão escondidas no Paulo. Thales foi até o canto da sala e começou a bater-cara, retomando a lembrança da brincadeira de esconde-esconde trazida por uma delas. Quando chegasse ao número 50, todas deveriam estar de volta aos seus lugares, com a palavra, antes escondida e agora achada, memorizada.

 

Sugerimos então que guardassem na memória tais palavras para darmos continuidade. O segundo momento consistiu em ser o mesmo desafio anterior, porém, agora, com dois detalhes diferentes: a procura seria por palavras escondidas em espaços da Vila e a palavra seria um verbo. Nossa escolha de alternar entre substantivo e verbo se deu como um modo de investigar se as palavras poderiam se relacionar com maior fluidez no momento seguinte, de composição textual coletiva, ao termos uma combinação de nomes e ações, e, desse modo, permitir uma maior riqueza poética. Tal cuidado foi inspirado na última composição coletiva que fizemos com elas, na semana anterior, na qual tivemos um processo muito bom, porém extenso, de composição, trabalhando apenas com substantivos. Enquanto caminhavam pela Vila à procura das palavras escondidas, Paulo registrava algumas fotos desse momento. Quando todas se reuniram, em poucos minutos, na porta do boticário, entramos para iniciarmos a próxima etapa.

 

Com todas novamente sentadas,

 

- Relatos do processo para se achar as palavras escondidas (narrativas de passagens de vida/memórias interessantíssimas por parte das senhorinhas – por trás das palavras escondidas, existem histórias/memórias maravilhosas escondidas – Paulo gravou alguns relatos disso!!!)

 

- Construção de produção textual com os substantivos e verbos “achados”

 

- Produto textual: criação de uma poesia, tal qual Gábi e Thales estão experimentando, com o texto, na qual teríamos nova (ou novas) palavra escondida que, com a nossa procura, acharíamos dentro do próprio texto (mostra do experimento poético feito pelo Thales com o poema produzido no encontro anterior, como exemplo e/ou inspiração para novas possibilidades)

 

- Tentativa do Paulo de retomar a “pesquisa” dos sons que não existem mais na Vila. Não deu por falta de tempo. Mas houve um levantamento rápido com elas desses sons, que foram listados pelo Paulo, seguido de exploração com cada uma delas de como marcam a tonicidade de algumas palavras, marcação esta sendo representada por um bater de palma durante a fala da palavra.

 

- Mostrar a gravação da música das crianças no final do encontro trouxe uma sensação diferente nas senhorinhas. Elas perceberam que havia ali algo mais descontraído e rítmico. Paulo e Thales avaliaram que este seria um recurso importante para ter sido explorado antes da criação do novo texto com as palavras achadas, e não no final do encontro, pois poderia ter sugerido mais naturalmente novas possibilidades de se trabalhar com as palavras, sem a necessidade de uma mediação tão intensa nossa!!!

Artistas mediadores: Paulo Afonso Caldas e Thales Alves

Encontro 4 – as crianças

As crianças e as narrativas

Encontro 3 – as senhoras

Nosso segundo encontro com as senhorinhas da Vila foi previsto e vivenciado em três momentos. Porém, antes, tivemos um espaço de “boas-vindas” com slides de fotos delas em atividade na semana anterior, enquanto chegavam, e, com o grupo já formado, apresentação dos artistas Paulo Afonso e Thales Alves que, com Gabriela Canale, mediariam este encontro.

No primeiro momento a proposta, apresentada pelo Thales, foi de aguçarmos os sentidos. Por meio do olfato, do tato e da audição, convidados por folhas secas de árvores, folhas de manjericão, lavanda, cravo, pecinhas plásticas de artesanato, sons da natureza (chuva e pássaros) e sons improvisados no próprio ambiente, como batidas na porta, sugerimos que elas, com os olhos vendados, introspectiva e espontaneamente, fossem curtindo lembranças, sentimentos, sensações para, num depois, cada uma representar tudo em apenas uma palavra por escrito num pedaço de papel e, em seguida, fixar esta palavra, de modo a ficar visível a todos, na parte do corpo que, para elas, mais representava esta palavra. Surgiram palavras como “lembranças”, “infância”, “calma” e “relaxamento”. Fizemos, ainda, uma rodada na qual cada uma expressou o processo que levou à representação pela palavra.

Passamos, então, para o segundo momento. Para retomar o encontro anterior, Gábi apresentou os produtos artísticos criados por elas junto com os que foram criados no último sábado pelas crianças, inclusive os vídeos feitos a partir das performances. Enquanto também mostrava cada foto, Gábi foi chamando a atenção para alguns detalhes interessantes: como as crianças acompanhavam com o corpo as linhas do espaço escolhido, as diferenças entre o colorido e o preto e branco etc. Elas ficaram positivamente surpresas com o resultado, sobretudo com a última foto, criada pela Gábi, que sugere uma sobreposição das fotografias das senhorinhas e das crianças num mesmo espaço. Lançamos, enfim, nossa proposta de performance para o dia. Projetamos a fotografia com sobreposição entre as senhorinhas e as crianças numa das portas da sala e sugerimos que cada uma delas fizesse sua entrada, interagindo com a foto, buscando representar com o corpo a palavra que havia escrito no papel. De uma a uma elas foram entrando no enquadramento da imagem capturada e deixando a projeção da foto ficar sobre o corpo. Quando todas já estavam no espaço, fomos alternando as imagens projetadas até, finalmente, termos a saída uma a uma do espaço.

Enfim, partimos para o terceiro e último momento. Digitamos e projetamos as palavras na parede e sugerimos, a priori, a composição de quatro versos, partindo ou não das palavras, a fim de formarmos um pequeno poema. Entre ajustes de concordância e de ordem das palavras e dos versos, tivemos este resultado:

 

Por que foges de mim

O perfume das flores

O brilho do sol

O barulho da mata nativa?

 

Lembro da minha infância

Através dos aromas

 

Passamos para uma etapa de construção coletiva, na qual o grupo, verso a verso, foi compondo uma melodia para o poema. Paulo foi mediando as entradas e sugestões das senhorinhas para potencializar a apropriação de todas quanto às propostas individuais cantaroladas.

Antes de nos despedirmos, Paulo anunciou uma investigação que cada uma delas terá de fazer para ser apresentada na próxima semana: coletar sons que existiam na Vila e que hoje não existem mais.

Horas depois do encontro, Thales recompôs o poema, sugerindo novas possibilidades dentro do mesmo texto:

 

Por que foges de mim

O (p)erfume d(as) flore(s)

O brilho do sol

O barulho da mata n(a)tiva?

 Lembro (d)a minha infância

Atraves dos ar(o)mas

Houve uma composição musical entre os três artistas mediadores, momentos após o encontro, como uma releitura do que acabamos de vivenciar. Embalando uma interessante relação entre passado e presente, a partir de uma sutil reflexão entre os três sobre sensações de circular pela metrópole paulistana, unimos as frases “Barulho do trem” e ”Barulho do metrô” e formamos uma estrofe musical, cantadas respectivamente por Gábi e Thales, na qual sugerimos uma aliteração intercalada dos versos. Ao mesmo tempo em que eles representam a sequência repetida de sons dos referidos transportes, formam a melodia da canção. Intercalando-se com os versos, Paulo trabalha a melodia de “O trenzinho do caipira”, de Heitor Villa-Lobos.

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